Pós-graduação: fazer ou não fazer?

Pós-graduação pode ter diversos significados. Para alguns, é trabalho, para outros é algo que se faz depois do trabalho, nas horas vagas; uns a veem como sua própria vida, outros como um título exigido pelo empregador. Nesse cenário tão diversificado de impressões e opiniões, uma questão vem se tornando cada vez mais comum: fazer ou não fazer pós-graduação?

Já era hora de tocar nesse assunto aqui no comosobreviveraodoutorado.com. No entanto, responder a essa questão não é nada simples e envolve muitas variáveis. Eu vou começar com um relato pessoal, porque eu acho que a minha experiência pode ser semelhante à de muitos de vocês.

Mas não se preocupe: o post não é sobre dramas pessoais! Ele traz, na verdade, uma reunião de fatores, que você deve considerar na hora de decidir se segue ou não o caminho da pós-graduação.

 

Um relato pessoal

Quando eu entrei no doutorado, não tinha dúvidas sobre fazê-lo. Na minha cabeça, só existia um caminho de carreira possível: graduação > mestrado > doutorado > pós-doutorado > concurso para docência. Esse era o meu jeito de ver o mundo naquela época e eu fiz de tudo para permanecer nesse caminho. Emendei um curso atrás do outro, dediquei todo o tempo possível para a vida acadêmica, acabei mudando de país em busca de um programa de doutorado que se adequasse mais às minhas perspectivas de pesquisa.

Foi só no doutorado mesmo que eu comecei a questionar essa minha visão de mundo. No meu caso, o clique foi dado em algum momento em que estar longe da família e amigos pesou muito: algum Natal, aniversário ou alguma crise. Foi assim que eu comecei a questionar se valia a pena tudo aquilo, e tantos outros sacrifícios que acabei fazendo pelo título.

Há diversos fatores a serem considerados:

  • A essa altura, eu já sabia que assim que terminasse o doutorado, não teria um concurso esperando por mim. (Quem concluiu a pós-graduação a partir de 2016 não tem mais esse tipo de esperança!) Além disso, o doutorado no exterior tem muitos pontos positivos – mas tem um muito negativo que é o desafio de manter bons contatos no Brasil, estando tão longe.
  • Outra coisa é você desenvolver um projeto internacional que dificilmente pode ser conduzido de dentro do Brasil – normalmente por infraestrutura ou mesmo pela temática, que é o que, na maioria das vezes, te fez sair do país em primeiro lugar – e ter que voltar para casa depois do doutorado concluído e inventar um novo tema de pós-doutorado, já que aquele realizado no exterior continua difícil de ser desenvolvido por aqui.
  • E agora, a cereja no bolo: podemos somar a tudo isso a falta de bolsas de pós-doutorado, o sucateamento das mais importantes universidades brasileiras, enfim, o triste boicote governamental aos investimentos em Educação, Ciência e Tecnologia.

Nesse cenário todo, eu tinha vontade de gritar aos quatro ventos: não faça doutorado! Não perca seu tempo com isso! Vá se dedicar a uma carreira fora da Academia que tem mais futuro.

Acontece que eu sei que não sou só eu que passou por essa experiência durante a pós-graduação. Eu não fui a única que apostou muitas (senão todas) fichas do futuro no doutorado. Nem todos se arrependeram; eu mesma não me arrependo – quero deixar isso bem claro. A diferença é que hoje eu não vejo a pós-graduação como único caminho possível. E eu sei que provavelmente teria feito algumas coisas diferentes se tivesse tido essa clareza quando comecei.

Teria, por exemplo, ficado menos estressada, porque, afinal de contas, pós-graduação pode fazer mal para a saúde mental. Teria tentado aproximar minha pesquisa e desenvolvimento pessoal de um tema mais fácil de aplicar também fora da universidade, menos puramente acadêmico e mais condizente com as possibilidades de emprego.

Mas como disse, o post não é sobre os dramas do doutorado – meus ou coletivos. Vamos ver então o que se fala por aí sobre fazer ou não pós-graduação.

 

PhD or Not PhD?

Bom, a primeira coisa que se lê quando você pergunta ao Google se a pós é o caminho certo é que ir além da graduação faz de você diferente dos outros candidatos no mercado de trabalho. Ou seja, a pós-graduação é tida como um diferencial no currículo. Além disso, a Catho Educação apresenta a pós como uma “excelente ferramenta para aumentar a empregabilidade” e o Guia do Estudante diz que um título de pós “agrega valor à força de trabalho”.

Os argumentos favoráveis costumam falar de atualização, de uma formação mais completa, de possibilidade de networking. Mas aí, a pergunta é de que tipo de pós-graduação eles estão falando?

 

Tipos de pós-graduação

Atualmente no Brasil existem os cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Os cursos lato sensu referem-se a especializações, como o MBA (Master Business Administration). Segundo o MEC eles têm duração mínima de 360 horas e conferem um certificado de conclusão. Os cursos de mestrado e doutorado tradicionais que a gente conhece seriam então da categoria stricto sensu.

Além disso, há também o mestrado profissional, cuja oferta cresceu de 184 para 771 cursos em 10 anos.  Segundo a propaganda na Época, o mestrado profissional se propõe a “desenvolver pesquisas conectadas com a necessidade prática”; ou seja, ele seria a solução para aproximar pesquisadores e empresas.

 

A gente sabe agora que “fazer pós no Brasil” pode significar desde um MBA com duas aulas semanais a uma pesquisa de 4 anos de trabalho integral num laboratório – por exemplo. Ou seja, situações diferentes, com impactos distintos na vida de quem opta por um ou outro.

Acredito que os argumentos pró pós-graduação que mencionei acima referem-se mais à pós profissional e lato sensu e menos à experiência da pós-graduação acadêmica. Ao que parece, nesse meio, um título novo ainda pode garantir uma promoção e muitas vezes é incentivado pelos próprios empregadores.

Já no caso de uma pós acadêmica, a perspectiva é outra: exige-se muito tempo e dedicação do pós-graduando, sem promessas de retorno.

 

As estatísticas

No entanto, segundo estatísticas nacionais mais recentes, a pós acadêmica compensa, sim.

(Achou estranho? Eu também! Leia até o fim.)

De acordo com o relatório do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE, uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), em 2014 a taxa de mestres empregados no país era de 65% e a de doutores 75%. Além disso, esse mesmo relatório coloca a média salarial de doutores em R$ 13.861 e a de mestres em R$ 9.719 – um número muito superior à média geral da população, que era de R$ 2.449.

 

Remuneracao mensal média de doutores no BrasilRemuneracao mensal de mestres no brasil

 

Esses números inspiraram a revista Galileu a afirmar que “um diploma de pós-graduação” no Brasil “significa poder, emprego e grana”! Mas, será?!?

 

A prática

A meu ver, existe uma contradição significativa entre o que essas estatísticas indicam e o que observo a meu redor. Talvez isso aconteça porque, apesar de publicado em 2016, os dados colhidos para o relatório são do intervalo entre 1996 e 2014. Não sei como você vê a situação, mas, para mim, o Brasil de 2017 está muito diferente do de 2014. Imagino que estatísticas do momento atual mostrariam um cenário completamente distinto.

Primeiro por conta da redução da disponibilidade de bolsas de pós-doutorado, pelos cortes nas verbas destinadas à pesquisa pelo Governo Federal (vide o caso do CNPq). Além disso, muitas universidades federais e estaduais estão falindo e, com isso, o número de novas contratações despencou. Veja o caso mais famoso da UERJ, mas também da UNICAMP, da USP, da UFRJ e de tantas outras.

Em segundo lugar, o número de pós-graduandos no país cresceu muito nos últimos tempos. Em 2015 havia 325.230 matrículas de pós no Brasil, o dobro da quantidade de 2005. Ou seja, há muito mais doutores do que vagas para cargos de professor e pesquisador nas nossas instituições de ensino superior.

Além disso, já houve uma redução na taxa de emprego na maioria das áreas, entre 2009 e 2014, de acordo com o gráfico apresentando mestres empregados no Brasil por áreas de conhecimento  do CGEE.

 

Taxa de emprego de mestres no Brasil

 

Estatísticas internacionais mostram que um doutorado traz pouco retorno financeiro. Já há alguns anos, estudos mostram que, na Inglaterra, a diferença de salário entre um doutor e um mestre é de apenas 3% em geral e pode ser até negativa em áreas como engenharia e arquitetura. Em 2010, a revista The Economist reuniu algumas estatísticas internacionais no artigo Why doing a PhD is often a waste of time (Por que fazer doutorado é geralmente uma perda de tempo). Esse texto, que foi republicado em dezembro de 2016, menciona resultados do Projeto conjunto OECD/UNESCO Institute for Statistics/Eurostat Careers of Doctorate Holders (CDH), segundo o qual mais de 45% dos doutores belgas, tchecos, alemães e espanhóis ainda estavam em contratos provisórios depois de 5 anos de obtenção do título. Muitos deles pulavam de pós-doutorado em pós-doutorado. Além disso, na Áustria, por exemplo, um terço dos doutores estava trabalhando em áreas não relacionadas à sua formação.

 

Resumindo…

Se você pretende seguir a carreira acadêmica, vai precisar dos diplomas de mestrado e doutorado. (Se ainda houver um futuro na Academia, mas isso é assunto para outro post.) Nesse caso, então, a pós acadêmica é obrigatória.

Se você não pretende virar professor universitário, considere se precisa mesmo da pós, ou de que tipo de pós precisa.

Se você está na categoria dos que não precisam, mas mesmo assim gostaria de fazer, pese os seus motivos. Considere tudo que eu disse até agora e ainda pense no tempo que vai precisar para se formar e o quanto terá de se dedicar à pesquisa. Muita gente não leva a sério, mas pesquisa é trabalho e deve ser contada como tal, inclusive nas horas trabalhadas. Considere trabalhar de fim de semana e feriados, muitas vezes muito mais do que 8 horas por dia, sem carteira assinada, e obviamente sem qualquer benefício previdenciário ou seguridade de emprego. Considere também o aspecto financeiro – lembrando que bolsas estão escassas e nem sempre cobrem os gastos básicos.

Pesou tudo isso e ainda está decidido a seguir o caminho da pós-graduação? Parabéns! A essa altura sua escolha deve ter sido bem ponderada e você vai entrar mais preparado no processo seletivo.

 

Moral da história

Quero deixar claro que, com este post, não pretendo te fazer desistir da pós-graduação. Pelo contrário! O objetivo do comosobreviveraodoutorado.com é tornar essas escolhas cada vez mais conscientes e menos impulsivas; e o quanto antes, para evitar que a decisão se torne um fardo insuportável.

A pós-graduação já não é, por conceito, algo simples. É ainda mais difícil cursá-la nas condições atuais de sucateamento da pesquisa no Brasil. Mas embora essas condições não a favoreçam, elas não diminuem a importância da pós-graduação e da ciência. A pesquisa científica brasileira acontece em grande parte nos nossos cursos de pós-graduação.

Muito precisa mudar na forma como o governo atual vem (des-)tratando a pesquisa no país. No entanto, muitos ainda optam pela pós acadêmica sem pensar no retorno financeiro. Muitos ainda escolhem esse caminho por interesse pela pesquisa, para dar sua contribuição à ciência. Para essas pessoas, o comosobreviveraodoutorado.com está aqui à disposição, com todo o apoio e incentivo para essa jornada!

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