A Escrita como Processo

O tema da escrita acadêmica já foi tratado outras vezes aqui no comosobreviveraodoutorado.com. Falei um pouco sobre como fazer da escrita um hábito na sua vida; sobre a estrutura do trabalho acadêmico; ou ainda sobre como registrar seus avanços na escrita com uma done list.

O post de hoje é resultado de alguns estudos que venho fazendo sobre o tema, investigando técnicas e buscando dicas para ajudar na hora em que fica difícil escrever. O que eu trago aqui hoje é um modelo teórico sobre a escrita que a apresenta como um processo cognitivo. Ele foi publicado em 1980, por dois pesquisadores da Carnegie Mellon University (Pittsburgh, EUA): Linda Flower, Professora de Retórica, e John R. Hayes, do Departamento de Psicologia.

Esse modelo ainda é bastante popular e, apesar de ser uma representação genérica (afinal, é um modelo!), ele pode te ajudar a refletir sobre a sua escrita e talvez até te ajudar em alguma dificuldade.

 

O modelo Hayes-Flower

A teoria de Hayes e Flower sobre o processo cognitivo envolvido na composição de um texto parte do pressuposto de que, durante essa atividade, a pessoa passa por uma série de processos distintos de pensamento. Esses processos têm uma organização hierárquica determinada e são orientados pelo objetivo final: a escrita. No entanto, cada um desses processos pressupõe um objetivo em si; o que ajuda a desenvolver um “senso de propósito” e facilita a alteração ou adoção de novos objetivos, baseados naquilo que se aprende durante a escrita.

Parece complicado, mas eu vou tentar explicar.

A ênfase de Hayes e Flower na ideia de processos organizados de forma hierárquica contrapõe-se a uma ideia bastante difundida até hoje de processos sequenciais. Para os autores, não há uma sequência linear de estágios da escrita: etapas como escrita e revisão podem se misturar; as ideias da fase de planejamento podem não resultar em escrita e assim por diante.

Pelo contrário, em seu modelo cognitivo eles defendem uma maior flexibilidade para o pensamento, o que levaria a um estímulo criativo. Por exemplo, você não precisa determinar um momento para ter todas as ideias que vai desenvolver; pelo contrário, você pode permitir que novas ideias surjam ao longo da escrita

 

O modelo

Vamos então ao modelo propriamente dito:

Hayes-Flower Cognitive Model

O Modelo Hayes-Flower (1980)

 

Hayes e Flower identificaram três elementos envolvidos no ato de escrever. Eles estariam ligados ao texto (task environment), ao autor (the writer’s long term memory) e ao processo de escrita (planning, translating, reviewing).

  • O contexto da tarefa refere-se a todo fator externo que pode influenciar na produção do texto. Ele pressupõe questionamentos sobre sua natureza (trata-se de um trabalho de curso, uma tese de doutorado, um romance?); seu formato (há regras pré-determinadas?); seu público-alvo… Com o desenvolvimento da escrita o contexto viria a englobar o próprio texto produzido até então.

 

  • A memória de longo prazo do escritor (autor) refere-se ao conhecimento adquirido pelo autor e necessário para a produção do texto. Por exemplo sobre o tópico, sobre o seu leitor, ou conhecimentos gerais sobre o mundo e sobre outros textos.

 

  • Os processos de escrita seriam os processos básicos de planejamento, tradução e revisão do texto. Interessante notar que eles podem acontecer em qualquer fase do ato de escrever, conforme indicam as setas.

 

Os processos de escrita em foco

Planejamento, significaria mais do que traçar um plano: os autores falam em representação do conhecimento a ser usado na escrita. Essa representação é formada pela geração de ideias (generating) e por sua organização (organizing).

Aqui cabe ressaltar a ênfase atribuída por Hayes-Flower à definição dos objetivos (goal setting) do texto. Eles colocam essa etapa como parte do planejamento – não porque acreditam que ele deve anteceder ou guiar a tomada de decisões que vão gerar o texto, mas porque deve acontecer ao longo do processo.

 

A coisa mais importante sobre definir objetivos é o fato de que eles são criados pelo escritor. […] a maioria dos objetivos de um escritor são gerados, desenvolvidos e revisados pelos mesmos processos que geram e organizam novas ideias. e esse processo acontece durante a composição do texto. Assim como objetivos levam um escritor a gerar ideias, essas ideias levam a objetivos novos e mais complexos […] (p.373)

 

Esse ir e vir – delinear, descobrir e recriar objetivos – estaria diretamente associado à criatividade e poderia fazer a diferença entre um bom e um mau escritor – ou seja, aquele que limitaria a definição de objetivos à fase anterior à escrita.

A tradução seria a hora de passar as ideias – que podem estar em forma de palavras-chave, de desenhos, rabiscos – para uma linguagem escrita (formal).

Já a revisão seria composta de leitura (reading) e correções (editing). Segundo Hayes e Flower, ela pode ser planejada, como depois da conclusão de certos trechos de texto; ou espontânea, como uma leitura do texto e das anotações. Em ambos os casos, essa etapa pode levar a novos ciclos de planejamento e tradução.

O monitor, o último elemento do modelo, teria a função de um “estrategista da escrita, determinando quando o escritor deve mover entre um processo e outro” (p.374). Isso não seria em hipótese alguma um processo aleatório!

 

Críticas e revisão

Bom, há muito mais ciência por trás dessas conclusões que eu simplifiquei aqui.

Há também algumas críticas a esse modelo. Por exemplo, o fato de ele não ser ideal para iniciantes, pois pressupõe um certo domínio consciente dos processos; ou por negligenciar aspectos motivacionais que vão além do contexto da tarefa (Cf. Wolff 2002 Fremdsprachenlernen als Konstruktion. Frankfurt: Peter Lang).

Como eu disse, trata-se de um modelo produzido no fim da década de 1970 e início de 1980! O próprio Hayes, que continuou pesquisando o ato de escrever, publicou uma versão atualizada do modelo acima em 2012. Acompanhando a epistemologia das ciências, a nova versão traz um modelo em planos, em detrimento de processos.

 

Current version of the Cognitive Writing Model

O Modelo de Escrita atualizado (2012)

 

Não vou entrar em detalhes sobre o que mudou e porque. Isso seria tópico para um post futuro do comosobreviveraodoutorado.com.

(Interessou? Deixe um comentário se você quiser que eu faça uma breve explicação sobre o novo modelo).

 

Como usar o modelo a seu favor

A teoria por trás do processo da escrita já é bastante antiga. Na verdade, há discussões sobre isso dentro do campo da Retórica desde a Antiguidade Clássica. Exemplo disso, é o próprio texto Retórica, de Aristóteles que, apesar de ser dedicado à comunicação oral, trata de decisões e escolhas envolvendo o processo de composição de um texto. Mais recentemente, o tema ganhou popularidade, principalmente nos EUA, depois da publicação do texto “Ensine Escrita como um Processo, não como Produto” (Teach Writing as a Process not Product) em 1972.

Mas aí você se pergunta: e daí? Ou melhor, por que eu fui trazer essas coisas tão abstratas para uma página que se propõe a ajudar com dicas práticas, como é a comosobreviveraodoutorado.com?

Bom, como eu mencionei lá no começo: um modelo é uma explicação generalizada de uma série de observações e experimentos. Nem explica tudo, nem serve para todos os casos! O que eu quero dizer com isso, é que não fiz este post para você seguir o modelo, ou tentar adaptar o seu hábito de escrita a ele. A minha ideia de aplicação desses modelos é para:

  • refletir sobre como é o meu ato de escrever;
  • tentar entender como isso funciona para pessoas diferentes em situações diferentes;
  • usar isso como uma plataforma para novas ideias, hipóteses e explicações que podem ajudar nesses “processos”.

 

Espero que você, leitor do comosobreviveraodoutorado.com – com dificuldades de escrita ou não! – também possa fazer esse exercício de reflexão.

Aguardo comentário e impressões, hein?! Até a próxima!

 

Notas

Só mais duas coisinhas:

  • conforme eu explicava o modelo, tentei colocar os termos em inglês que aparecem na imagem original. Nem sempre fiz uma tradução literal em português, mas tentei usar termos mais explicativos, criados a partir da minha interpretação do artigo de Hayes e Flower.
  • se você perdeu as referências ao longo do texto, o modelo Hayes-Flower original foi discutido no paper Hayes & Flower (1981). “A Cognitive Process Theory of Writing” in College Composition and Communication, 32(4), 365-387. É daí que eu tirei todas as minhas explicações sobre ele. Você pode acessá-lo aqui, se quiser mais detalhes sobre cada um dos processos e sub-processos. O paper mais atual sobre a nova versão de Hayes do modelo é o Hayes (2012) “Modeling and Remodeling Writing” in Written Communication, 29(3) 369–388, que você pode acessar aqui


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