Continue a Escrever – Como Fazer da Escrita um Hábito

Escrever é difícil! Se você não acha, considere-se uma pessoa de sorte. Pode ser também que você já tenha achado difícil em algum outro momento, ou que venha a achar ainda. Não que eu esteja te desejando isso, longe de mim! Mas é que sei como funciona: às vezes flui melhor, às vezes não vai de jeito nenhum!

Já comentei aqui no comosobreviveraodoutorado.com que certas dificuldades em escrever estão relacionadas às nossas expectativas sobre o texto. Cobrança e perfeccionismo podem levar à procrastinação, ou mesmo ao chamado bloqueio da escrita. Num dos primeiros posts com dicas do que fazer e o que não fazer na hora de escrever um trabalho acadêmico, eu advoguei contra certos rituais de escrita e propus que você não se condicione a uma estrutura determinada para escrever, como a escrivaninha da sua casa, por exemplo, ou ainda uma manhã toda livre. Quanto menos você constrói um imaginário em torno do escrever – falando aqui de expectativas e cenários ideais para estimular a criatividade –, mais fácil será você pensar o hábito de escrever como uma tarefa que pode ser feita a qualquer hora e lugar.

 

Faça como o Stephen King

Isso é uma coisa que serve em geral, para escrita acadêmica ou não. Se você imagina que grandes escritores produzem seus best-sellers sentados num escritório com cadeira ergométrica, escrivaninha na altura ideal, luz entrando na diagonal, sem refletir na tela do computador de última geração, num silêncio absoluto interrompido apenas pelo cantar dos passarinhos – e não pelo frear do ônibus parando no ponto –, depois de uma noite de 8h de sono rejuvenescedoras… sinto muito, mas tenho que te decepcionar. Aliás, acabei de ler a autobiografia do Stephen King , Sobre a escrita — A arte em memórias (super interessante se alguém estiver buscando dicas de leitura), na qual ele conta como teve a ideia para Carrie (Carrie, a Estranha), seu primeiro grande sucesso em 1974, enquanto trabalhava numa lavanderia e como escreveu a história no trailer onde morava com a esposa e dois filhos.

Isso é para te lembrar que certas condições específicas são maravilhosas e certamente podem ajudar; mas não são requisitos básicos para uma boa sessão de escrita, certo? Faça como o Stephen King e escreva apesar das condições!

Mas o post de hoje não trata especificamente do imaginário que construímos em torno do ato de escrever. Este texto fala sobre o hábito da escrita, sobre como escrever todos os dias!

 

Escrever, não importa o que

Certamente você já ouviu o conselho: escreva um pouco por dia. Bom, me lembro que quando disseram isso para mim eu respondi com uma gargalhada, como quem diz “você fala como se fosse simples!” Obviamente não é simples, mas é super possível! E ultra benéfico!

Em um dos estudos mais inovadores sobre procrastinação na Academia, Boice propõe um experimento para incentivar o hábito de escrever entre jovens professores. O texto é de 1989, mas ainda bem atual.

Resumo aqui brevemente o experimento:

  • Os participantes foram divididos em três grupos.
  • Grupo 1: adotou a prática de escrever um pouco por dia (sessões curtas, mas diárias) e de reportar seu progresso a um examinador.
  • Grupo 2: também adotou as sessões curtas e diárias de escrita, mas não teve seu progresso controlado por um examinador externo.
  • Grupo 3: manteve os hábitos de escrita que já possuía – neste caso, escrever apenas quando tivesse uma janela de tempo e condições ideais.

No fim do experimento, os resultados foram assim:

  • Grupo 1: conseguiu transformar a escrita em rotina. Todos os participantes terminaram (um ou mais) artigos acadêmicos; a produção média do grupo atingiu 145 páginas no ano do experimento.
  • Grupo 2: teve resultados significativamente menos satisfatórios, produzindo 59 páginas em média.
  • Grupo 3: teve resultados insatisfatórios, totalizando uma média de 16 páginas ao ano.

Ah, esqueci de dizer que cada grupo era formado por 10 participantes, por isso os cálculos em média. De qualquer forma, estamos comparando 16pp versus 145pp!! Chocante a diferença, certo?

Pois então, Boice nem chama o experimento de experimento, mas sim de intervenção. Ele quis observar outros comportamentos de jovens professores como o fato de eles não saberem administrar o tempo, expectativas e produtividade em geral, etc. Aqui para nosso post, focamos na questão do escrever um pouco por dia a fim de transformar essa prática em um hábito.

 

Escrever “um pouco” significa…

Bom, neste caso, quando eu falo “um pouco” por dia, estou me referindo a uma média de 30 a 60 minutos. Você pode começar com 15 minutinhos (menos que isso não vale, tá?) e depois avançar até chegar a completar uma hora. Ou pode ter dias em que você escreva menos e dias que consiga fazer sessões mais longas.

O objetivo é criar um hábito praticável. Ninguém pode dizer que não tem 15 minutos por dia para sentar e escrever, concorda?

 

Escrever “todo dia” é todo dia mesmo?

Sim!!!!!!!!!!!!!!! Escrever todos os dias significa escrever t-o-d-o-s-a-n-t-o-d-i-a!

Mas e se…?? Gente, calma! Estamos tentando construir um hábito, lembra? Talvez você entenda melhor o objetivo, se eu te contar que, biologicamente falando, um hábito é na verdade a adaptação de uma região específica do nosso cérebro a um novo padrão de atividade e que essa adaptação se dá aos poucos – conforme estamos construindo esse hábito –, mas que uma vez estabelecida é muito difícil de ser desfeita.


A construção de um hábito

Neurocientistas do mundo todo estudaram os mecanismos de construção de um hábito no nosso cérebro. Na década de 1990, pesquisadores do MIT colocaram ratinhos numa espécie de corredor em forma de T (que eles chamam de labirinto) e um pedaço de chocolate em uma extremidade do T. Eles observaram como os ratinhos iam e vinham pelo eixo do T, farejando a cada passo, a princípio sem encontrar o chocolate. Depois que encontravam o chocolate, farejavam menos, erraram menos o caminho progressivamente, até que passaram a ir direto ao chocolate. Durante os experimentos, os cientistas monitoravam a atividade cerebral dos ratinhos e perceberam que conforme eles “aprendiam” o caminho, sua atividade cerebral diminuía.

Em resumo, é aquela ideia de que as coisas acabam virando automáticas depois de serem repetidas inúmeras vezes. Quando você está aprendendo a dirigir, fica repassando na cabeça passo a passo o que tem que fazer até que não precisa mais pensar conscientemente como trocar a marcha. O seu cérebro aprendeu o mecanismo, se ajustou a ele e guardou essa informação que virou uma resposta automática. Grosso modo, é assim que se constrói um hábito!


Portanto, para você transformar uma rotina de escrita em um hábito é preciso praticar com frequência, até que seu cérebro se ajuste ao ato de escrever. É por isso também que no começo é mais difícil, porque assim como o ratinho, você ainda tem que aprender o caminho certo dentro do labirinto e isso pode ser bastante desgastante. Mas assim que você chegou lá, sentar e escrever um pouco por dia vai ser igual a escovar os dentes ou dirigir!

Ah, e claro, se você perder um diazinho nessa jornada de aprendizado, não é que está tudo perdido, mas você vai demorar mais para construir o hábito. Conselho: melhor 15 minutos num dia do que muitos dias a mais!


Bônus: ainda sobre o nosso cérebro

Se você acompanha o comosobreviveraodoutorado.com já sabe que conforme avançamos na produção do nosso texto, quando começamos a ver ele tomar forma, nos sentimos melhor e mais estimulados a continuar. Eu falei sobre isso em outros posts, quando sugiro que você estruture seu texto antes de começar a escrevê-lo, ou que adicione as referências bibliográficas automaticamente, para ir preenchendo a página em branco do editor de texto.

Bom, isso também tem uma justificativa neurológica. Depois que o cérebro aprende que o esforço da escrita será recompensado com a sensação deliciosa de trabalho cumprido (paper submetido, tese impressa e entregue…), toda vez que você reinicia o processo de escrever, seu cérebro te incentiva com hormônios que te estimulam a continuar no caminho em busca daquele mesmo desfecho. Esse mecanismo de recompensa funciona de tal forma que a cada passo conquistado, mais hormônio que te deixa feliz é liberado e mais fácil fica se esforçar e se dedicar a atingir esse objetivo final!


 

Mas escrever o que?

Depois de tudo isso claro, vamos então ao escrever. O que eu quero dizer quando te aconselho a escrever todo dia?

Bom, se você está escrevendo sua tese, dissertação ou TCC, você tem um plano de escrita. (Se você não tem, dá uma olhada nos posts estruturais aqui do comosobreviveraodoutorado.com e fique ligado para dicas futuras.) Escrever aqui envolve as diversas etapas da escrita acadêmica, o passo a passo que te leva ao texto final. Portanto nas suas sessões curtas e diárias, você pode:

  • Pegar uma folha em branco e anotar ideias que vão formar um texto;
  • Pegar essas mesmas ideias e começar a ligá-las em formato de texto;
  • Pegar esse texto e ir lapidando sua argumentação;
  • Fazer a revisão ortográfica de um trecho de texto;
  • Conferir as notas de rodapé ou referências;
  • Escrever um resumo para um paper ou uma conferência;
  • Trabalhar nas suas figuras e tabelas;
  • Etc, etc.

Ou seja, quando digo escreva todo dia não quero dizer necessariamente abra um editor de texto e comece um texto do zero, mas sim crie o hábito de mexer no seu texto diariamente e incrementá-lo de alguma forma.

 

Por que isso funciona?

Se você fizer sempre a mesma coisa, pode enjoar e começar a criar resistências ao escrever. Além disso, é super aconselhável alternar tarefas de acordo com sua concentração e cansaço. Ou seja, escreva do zero quando estiver bem acordado e ativo e deixe a revisão ou as referências bibliográficas para quando estiver menos atento. Mexa nas figuras e tabelas quando se sentir menos criativo e volte ao texto quando “pegar no tranco”.

 

Mantenha um registro dos seus escritos

Lembra que no experimento com os jovens professores, os mais bem-sucedidos dividiam com alguém o progresso da escrita? Pois então, você pode tentar isso também. Mantenha uma done list para registrar suas atividades de escrita e ir refletindo sobre seu rendimento. Se você tem amigos na mesmo situação que você, divida com eles a sua done list e use isso como uma motivação a mais.


Se você tem interesse em participar de um clube ou laboratório virtual de escrita, para trocar informações, suporte e construir novas estratégias de escrita acadêmica numa rede de contatos para acadêmicos, deixe um comentário aqui ou no facebook do comosobreviveraodoutorado para fazer parte desse nosso novo projeto!


Só mais uma dica

Para concluir, queria dividir uma dica que funciona bem comigo: se você se enroscar, mude alguma coisa! Se você está escrevendo no computador e enroscou, pegue um papel e uma caneta e comece a rabiscar. Mude de posição, troque a cor da caneta, troque frases completas por palavras-chave…
Mude, mas não pare!

 

E você? Já conseguiu fazer da escrita um hábito na sua vida? Ou você é daqueles que sofre para escrever? Deixe um comentário aqui contando a sua experiência e até o próximo post do comosobreviveraodoutorado.com!!

(Photo by Aaron Burden on Unsplash)

Um comentário em: “Continue a Escrever – Como Fazer da Escrita um Hábito

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