Síndrome do Impostor: quando você se sente uma fraude

Na semana passada, eu assisti uma aula sobre a síndrome do impostor. Acabei impressionada como ela pode se manifestar em qualquer um. Fiquei pensando: “se gente como Emma Watson  e Kate Winslet  já questionaram seus sucessos e se viram como fraudes, o que será de nós, estudantes e pesquisadores?!”

Acho tanto a Emma quanto a Kate excelentes atrizes e mulheres exemplares (fortes, que se posicionam publicamente). Mas não sou só eu, certo? A estrela de Harry Potter é idolatrada por milhões de pessoas no mundo, desde sua primeira aparição como Hermione. Kate explodiu como Rose no Titanic, participou de vários outros blockbusters, já ganhou Oscar, Globo de Ouro, BAFTA e até um Grammy! Ou seja, reconhecimento externo não falta na vida dessas atrizes e mesmo assim elas sofreram de síndrome do impostor.

Mas reconhecimento é exatamente o que falta nas nossas vidas de estudantes, pesquisadores, pós-graduandos. Então como lidar com essa sensação de fraude no meio acadêmico, essa insegurança de que você está ali por sorte e não pelo seu mérito? Para isso, temos que tentar entender um pouquinho mais sobre esse problema.

 

O que é a Síndrome do Impostor?

A síndrome do impostor é um problema cada vez mais diagnosticado entre estrelas da mídia e profissionais de cargos de responsabilidade em empresas bem-sucedidas no mundo dos negócios. Quando descrita pela primeira vez em 1978, a síndrome foi considerada mais presente em mulheres ocupando cargos de liderança.

Mulheres impostoras

O artigo de Pauline Rose Clance e Suzanne Imes (1978) “The Imposter Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention” estudou 150 mulheres bem-sucedidas – ou seja, mulheres com doutorado que já eram profissionais respeitadas em suas áreas, ou estudantes com um histórico acadêmico reconhecido como excelente. O resultado foi que, apesar dos títulos e honras conquistados por essas mulheres, ou do alto desempenho em testes, dos elogios e reconhecimento profissional por parte de colegas e autoridades, elas não se sentiam bem-sucedidas; pelo contrário, consideravam-se “impostoras”.

Durante o pós-guerra, muitas mulheres chegaram a posições de liderança e assumiram papeis importantes, tradicionalmente ocupados por homens. Era como se a economia precisasse dessas mulheres; mas a sociedade ainda não estava preparada para reconhecer o valor delas. Isso interferia diretamente na imagem que essas mulheres faziam de si mesmas.

Dessa forma, a síndrome do impostor tem a ver com estereótipos; com a construção de características ideais que alguém tem que ter para ocupar um cargo ou uma função. Essas características, no entanto, por serem idealizadas, são inatingíveis. Mas elas seguem como modelo! Com esse modelo inatingível em mente, a pessoa não se considera à altura de sua posição, sente que não tem as qualidades para estar ali, que alcançou aquilo por sorte.

Um problema humano

A psicóloga Gail Matthews se uniu a Clance para um novo estudo na década de 1980, que concluiu: 70% das pessoas bem-sucedidas – entre mulheres e homens – tiveram episódios de síndrome do impostor em algum momento de suas carreiras. Como coloca o blog Manual do Homem Moderno

Você pode ter trabalhado toda uma vida para se tornar o chefe da empresa em que atua ou mesmo ‘startou’ um empreendimento só seu. Mas, quando finalmente chega a sentar-se naquela grande cadeira de couro confortável por trás da mesa, você já se sente como a pessoa mais falsa do mundo em um ambiente que não deveria ser o seu.

 

A Síndrome do Impostor na Academia

No ambiente acadêmico, a síndrome do impostor atinge diferentes níveis: de graduandos a professores. Dr. Valerie Young diz que em sua experiência estudando a síndrome do impostor a única situação em que mais homens sofrem da síndrome do que mulheres é na Universidade; mais especificamente no cargo de professor.

A explicação geral do porquê de a síndrome do impostor ser tão comum no ambiente acadêmico tem a ver com suas características: a Academia fomenta uma cultura de criticismo. Apesar da descrição vir da cultura acadêmica dos EUA, acredito que ela se encaixa bem no nosso contexto brasileiro.

A síndrome do impostor envolve a ideia de como você se apresenta aos outros (ou como seus pares te veem) em contraposição a como você se vê e vê suas conquistas. Esse contraste sucesso vs. fraude pode assombrar o acadêmico, e levar à criação de um discurso negativo, que provoca a sensação de impostor.

Como ela se manifesta?

Olhe ao seu redor e faça um exercício de observação. Todo acadêmico e toda acadêmica (estudantes, pesquisadores ou professores) que você vê parecem super ocupados, ultra requisitados. Todo mundo parece saber o que está fazendo. Parece até que o trabalho – a pesquisa e os estudos – são naturais ao acadêmico, afinal, é sua profissão.

Bom, se é assim que você enxerga as pessoas ao seu redor, provavelmente vai se identificar com as próximas linhas.

Quando chega então a sua vez de trabalhar, você sente dificuldades; não consegue se concentrar, se acha pouco criativo, tem um rendimento baixo… E você segue enxergando todo mundo ao seu redor como eficientes, capazes; daí é um pulinho para a conclusão de que eles são melhores que você, que você não é bom suficiente. E pronto: está feito o estrago! Isso te entristece, te causa ansiedade, te impede de fato de ser produtivo…

Academic Shutdown

Pessoas sofrendo da síndrome do impostor relatam (p. ex. aqui e aqui) o que a literatura em inglês chama de Academic shutdown, ou seja, aquele momento em que você acaba deixando de cumprir com seus compromissos na universidade.

Isso porque impostores são, em geral, perfeccionistas. Um professor te deu nota máxima num trabalho e te elogiou em frente aos colegas de classe? Seu paper foi publicado num jornal de alto fator de impacto? Você conseguiu uma bolsa de pesquisa super concorrida? Então isso tem que se repetir! Você se coloca o compromisso de ser sempre o melhor, de render não 100, mas 110%.

Esse perfeccionismo te leva a questionar tudo que você faz. “Será que meu próximo texto vai ser tão bom quanto o passado?” “E se a banca não gostar da minha nova ideia?” “Acho que deveria saber aquele assunto específico, então não posso pedir ajuda. Vai que alguém descobre que não sei nada!”

Daí você começa a procrastinar (leia dicas para evitar a procrastinação aqui). Decide fazer outra coisa, ao invés de focar na pesquisa. Acha que ocupar o tempo com atividades paralelas vai acabar te dando inspiração para voltar ao tema, mas quando vê o tempo passou e seu rendimento foi próximo do zero, o que só faz aumentar a ansiedade (leia mais aqui) e faz com que você se sinta pior ainda do que já se sentia antes.

Os textos do Huffpost e do Tua Saúde trazem uma lista de sintomas da síndrome do impostor para pessoas de dentro e fora da Academia. Se você se identificou com tudo que eu escrevi até aqui e se sente um impostor, continue lendo as dicas que eu reuni para combater essa sensação de fraude e retomar o controle sobre sua vida acadêmica.

 

Sou um Impostor/uma Impostora! E agora?

A mentora acadêmica Moira Killoran sugere um exercício simples para ajudar a reconhecer seus pontos fortes e vencer a síndrome. Divida uma folha de papel em dois. Na metade da esquerda, escreva como você acha que as pessoas (seus colegas, professores, alunos) te veem em palavras-chave.

Se você sofre da síndrome, provavelmente vai listar coisas ruins sobre você. Ao reler o que você escreveu, tente identificar essa negatividade e considere item por item novamente. Será que é isso mesmo? Conforme você toma consciência desse discurso autodestrutivo, você passa a ser capaz de repensá-lo e talvez até de substituir sua descrição por palavras mais positivas.

Digamos que seu trabalho envolva outras pessoas. De imediato você se descreveu como “dependente” porque sente que precisa da equipe para desenvolvê-lo. Tente pensar que ao invés de dependente, você é alguém capaz de trabalhar em equipe, o que é uma característica positiva e não óbvia – tem gente que não sabe ser team player!

Na outra metade da sua folha, coloque as palavras que você gostaria que as pessoas usassem para te descrever – ou como você gostaria de se sentir. Compare as duas colunas. Talvez o trabalho em equipe te faça sentir capaz, te faça uma pessoa motivada para trabalhar, talvez você até inspire os outros e tenha um papel de liderança no time?

Valorizar ao invés de criticar

A ideia é que nesse exercício, você enxergue suas capacidades e consiga aceitá-las ao atribui-las a contextos específicos, reais da sua vivência na universidade. Se você não conseguiu chegar no lado positivo da descrição, Moira sugere que você reflita mais sobre a negatividade de seu vocabulário e até que use o humor para lidar com isso. Tente exagerar a situação, seus medos e sua autocrítica de um jeito que vai ficar impossível não rir! Claro, se você sente que isso atrapalha mesmo a sua vida, o melhor a fazer é procurar ajuda profissional.

 

Uma visão alternativa sobre a Síndrome do Impostor

Há, no entanto, outras formas de lidar com o problema. Num texto divertido publicado no blog do Times Higher Education no ano passado, uma aluna de doutorado na Universidade de Oxford defende:  “pense como um impostor e você irá longe na Academia!” Para ela, adotar a figura do impostor significa desmistificar a pós-graduação (se essa ideia não te soa familiar, você precisa ler isto e isto)!

Assim, você teria a liberdade de fazer perguntas sem medo de parecer desinformado ou de abrir um manual básico sobre um assunto mesmo estudando o tema há anos. Não se sente adequado para sua posição? Sem problemas, pois você teria às mãos tudo que precisa para chegar lá: você está rodeado por gente capacitada (você pensa assim, lembra?), literatura e até equipamentos de ponta. Tente não pesar o quanto você é capacitado para fazer uso de tudo isso; na sua insignificância convicta, pegue o material e faça o seu melhor. Afinal – ela termina – é isso que todo mundo faz!


No fim das contas, considere que muita gente boa e importante por aí já sofreu da síndrome do impostor. Pode acontecer com qualquer um! A forma como você lida com ela é que pode fazer a diferença para que isso não seja um peso na sua vida universitária. Converse com outras pessoas sobre isso, tente ter uma ideia clara do seu trabalho (tese ou dissertação), dos seus objetivos na pós-graduação e, mais importante, continue seguindo as dicas do blog! Até a próxima!

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