Ansiedade – da Série “Diálogos com Especialista”

A ansiedade é um assunto recorrente entre pós-graduandos. Há cerca de um mês fiz um post sobre os efeitos psicológicos da pós-graduação. Nesse post, mencionei estatísticas assustadoras de transtornos psicológicos sofridos por estudantes. A linha parece muito tênue entre conseguir lidar de forma saudável com os desafios da vida universitária e ficar doente. Acredito que muita gente percebe isso, mas não sabe como proceder, a quem recorrer. Por isso, resolvi entrevistar especialistas sobre o assunto, para entender um pouco mais sobre esses problemas.

No post inaugural da série “Diálogos com Especialista”, trago uma entrevista com o amigo e psicólogo Felipe Sacomano sobre o tema da ansiedade. Felipe é especialista em Gestalt-terapia. As informações de contato você encontra no final do post. Boa leitura!!

 


Felipe: Olá, Gabriella. Primeiramente gostaria de dizer que é um prazer me reencontrar com você nesta entrevista. Nos conhecemos num momento marcante em minha vida, quando realizava minha primeira viagem ao exterior. Foi muito prazeroso ser recebido em sua casa numa cidade marcada historicamente por grandes pensadores de séculos passados, que fazem parte de meus estudos diários. Nunca esquecerei da ceia de Natal em sua casa, na cidade de Heidelberg!

Gabriella: Sim, Felipe, muitos Natais longe das famílias nessas nossas vidas de estudantes itinerantes. E agora eu tenho o prazer de conversar aqui com o Felipe profissional. Um tema que atormenta muito a vida dos estudantes é a ansiedade. Mas o que é a ansiedade? Você diria que a ansiedade é um sintoma ou uma doença?

Felipe: A ansiedade é um estado humano que se manifesta de diferentes maneiras em determinados momentos e de formas diversas nas pessoas. Não me sinto confortável definindo o que é a ansiedade, mas como um sujeito fica ansioso, inclusive a partir da minha própria ansiedade, quando ela se manifesta.

Gabriella, eu nunca vi a ansiedade, nem a serenidade, alegria, tristeza … por isso digo que não sabemos o que é, mas sim, como ela acontece. O ponto está na palavra como, pois, dá a oportunidade de conhecer a pessoa ansiosa ao invés de explicar ou definir o termo. A ansiedade se manifesta de diferentes formas nas pessoas, dependendo dos motivos para acontecer. Esse sentimento vem e vai em momentos esporádicos e, em algumas pessoas ele permanece por mais tempo.

Como de costume em qualquer tipo de exposição que faço, gostaria de desmembrar a palavra em seu significado. A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas: que significa “angústia, ansiedade“; de anxius: “perturbado, carente, pouco à vontade“; de Anguere, “apertar, sufocar, atormentar, causar tensão“. Como disse Aurélio Buarque de Holanda Ferreira: “A ansiedade é, portanto, uma grande excitação contida, encapsulada”, aliás, a palavra latina angústia significa: “estreiteza, limite de espaço ou de tempo”.

Com essa definição etimológica, podemos compreender que o estado ansioso faz com que a pessoa deixe de vivenciar situações cotidianas. O indivíduo ansioso inibe o processo natural de contato e assimilação de qualquer situação da vida importantes para seu crescimento, devido ao receio antecipado do que e como tais situações possam lhe afetar. Este, não consegue, espontaneamente, eleger o objeto hierarquicamente mais importante, no aqui e agora, e se mover rumo ao mesmo, no sentido de assimilá-lo. Desse modo, fica difícil ir a uma festa tentando evitar encontrar com determinada pessoa; fica difícil aprender conteúdo se preocupando com a nota da prova; fica penoso defender a dissertação de mestrado sem ter compreendido a temática e o objeto em questão.

A pessoa ansiosa se pré-ocupa demais, pensa muito no futuro e o presente escapa como um copo de água despejado sob as mãos. Como psicólogo, Gestalt-terapeuta que sou, gosto dos dizeres de Friederich Salomon Perls, que aliás, Gabriella, também pisou no império alemão. Nascido na cidade de Berlim, ele dizia que “a ansiedade é o vácuo entre o agora e o depois (…) se você estiver no agora não pode estar ansioso“. (Perls, 1977, p. 15).

Enquanto à sua outra pergunta, quero dizer que a ansiedade pode ser considerada um sintoma, mas também, uma doença. Na verdade, do estado ansioso do indivíduo derivam transtornos de ansiedade, como o de pânico, o fóbico, o obsessivo, entre outros. Não pretendo nomear todos eles, nem me aprofundar tecnicamente, uma vez que vivemos numa sociedade que sofre dois movimentos sérios atualmente: a patologização e a medicalização da vida. Resumidamente, o primeiro movimento se refere, como o próprio nome diz, ao disseminar de patologias na sociedade, enquanto o segundo, à referência biomédica para cura de todos os problemas da vida. Sendo assim, o que posso afirmar por hora é que o grau de ansiedade de uma pessoa pode sim se tornar uma doença.

 

Gabriella: E como a ansiedade pode se manifestar?

Felipe: A ansiedade se manifesta de várias formas, Gabriella. As pessoas geralmente percebem por meio das respostas físicas, como por exemplo as “borboletas no estômago” diante de uma avaliação de ensino; o movimento repetitivo das pernas frequente; o roer de unhas, etc. O estado ansioso acontece para cada pessoa de um determinado jeito. A ânsia geralmente se manifesta em relação a algo que ainda está por acontecer, fazendo com que a pessoa se antecipe, deixando o momento presente de lado.

Como disse anteriormente ao citar o significado etimológico da palavra, a ansiedade envolve o tempo, portanto, presente e futuro se confundem, fazendo com que o indivíduo ansioso se desloque no tempo, projetando-se no depois, dando a sensação de que a pessoa está em outro lugar (fantasiosamente, imaginariamente). A ansiedade em demasia, gera um estado de alerta por uma situação que ainda não aconteceu, fazendo com que a pessoa sofra muito.

 

Gabriella: Você vem tratando a ansiedade como uma parte da vida. Mas até quando a ansiedade pode ser considerada normal? Quando é necessário procurar ajuda?

Felipe: Legal que fez essa pergunta, Gabi. Como disse anteriormente, a ansiedade acontece com todos nós. Mas quando ela passa a ser frequente e incomodar a pessoa, ou seja, impedir que se tome decisões; afetar seus relacionamentos interpessoais; repercutir em sintomas físicos exacerbados, entre outras, é preciso dar mais atenção. O transtorno se agrava quando se torna um ciclo vicioso, ou seja, o sujeito se interrompe e se sobrecarrega com tantas situações incompletas que não pode prosseguir satisfatoriamente com o processo de viver e se nutrir de forma eficiente. Nesse ponto, a pessoa precisa pedir ajuda, ou, precisamos oferecer ajuda a uma pessoa que sofra desse modo.

O pânico, por exemplo, emerge com ataques repentinos. Qualquer um de nós pode vivenciar uma crise de pânico. Uma situação horrorosa de um sequestro relâmpago acompanhado de tortura e maus tratos pode ser causadora de um ataque de pânico. Mas … tem pessoas que sofrem com crises de pânico várias vezes durante o mês, a semana, ou até no mesmo dia. Esse indivíduo, no caso, sofre com o que chamamos de síndrome do pânico. Esse transtorno acontece quando motivos levianos à luz da sociedade são motivos de terror para o sujeito. Uma situação de briga, o ranger de uma porta, podem desencadear uma crise de pânico para essas pessoas.

Não podemos evitar, fingir que as pessoas não sofrem danos com isso. A ansiedade hoje é social, está cada vez mais presente nesse mundo cheio de cobranças, metas, especificidades e fragmentações. A ansiedade é parte integrante do fenômeno humano. O homem é um ser de cultura, sobretudo na sociedade moderna, tendo, ainda, que se realizar dentro de um período limitado: o homem tem consciência da sua própria finitude. Esta realidade por si só é potencialmente um gerador de ansiedade contemporâneo a nossa época.

 

Gabriella: Há indicação para quando procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica? Como é o tratamento?

Felipe: Sim, legal! Quando uma pessoa vivencia crises de ansiedade frequente, como a síndrome citada na questão anterior, é imprescindível ajudá-la a procurar um psicólogo ou um psiquiatra. O tratamento deve ser de maneira profissional e sem exageros. Como disse noutra questão passada, tenho visto acontecer um uso desnecessário de medicamentos, portanto, se o psiquiatra entender que não é preciso intervir com medicamentos, pode-se sugerir um acompanhamento psicológico e, se o psicólogo julgar necessário a intervenção medicamentosa, deve-se sugerir que procure por um psiquiatra para auxiliar o tratamento da pessoa.

Em minha atuação, costumo receber muitas pessoas que fazem uso de medicamentos fortes sem a necessidade da utilização. Desse modo, contribui-se para que a pessoa adoeça mais ainda, uma vez que a pessoa é rotulada – como se recebesse uma marca – passando a ser “portadora de uma doença”, que na verdade não existe. Isso acontece devido ao mau diagnóstico médico.

Confesso que dá um trabalho danado fazer o “desmame” dos medicamentos até a pessoa se estabilizar e passar a independer do vício, que a maioria dos psicotrópicos causam. Portanto, é legal buscar ajuda com profissionais competentes. Aproveitando o espaço em seu blog, que fala do humano na pós-graduação, quero ressaltar que disse a palavra “competentes” e não “qualificados”. Há uma gama de profissionais cheios de títulos por aí, mas que não sabem realizar um diagnóstico, uma análise e/ou um atendimento humanizado.

Ainda em relação ao tratamento, em minha atuação especificamente, costumo indicar, quando necessário, cuidados profissionais que veem, assim como eu, o cliente em sua totalidade, integralidade, humanidade. Procuro indicar psiquiatras e homeopatas que tem uma visão holística do ser humano e procuro abrir mão daqueles que trabalham apenas com a visão biomédica. Os trabalhos com as questões emocionais devem envolver corpo e mente como uma unidade e não uma parte separada da outra.

 

Gabriella: Quais dicas você daria para evitar a ansiedade? Como é possível enfrentar problemas de ansiedade na Academia?

Felipe: Gabi, você tocou num assunto importante para ser tratado aqui. O meio acadêmico tem contribuído muito para esse movimento ansioso, por meio da produção de conteúdo. Para mim, o fazer científico da academia tem se tornado consumista. Vejo a produção científica não muito distante dos modelos de produção do capitalismo. Hoje em dia as pessoas precisam ter títulos, diplomas, premiações, para serem reconhecidas. Esse reconhecimento, para mim, é uma armadilha.

As pessoas lutam, se sacrificam, se flagelam para produzir conteúdo de pesquisa em prol de reconhecimento, mas não percebem que esse reconhecer é impessoal. Essas pessoas almejam serem reconhecidas produzindo algo que o mercado “exige“ e não para satisfações pessoais. De fato, é muito importante estudar, obter conhecimento, refletir, pensar. Mas essa exigência exacerbada de produção de conteúdo tem tirado as respectivas pessoas da vivência, do convívio (viver com), do lazer, do existir. Esse movimento, para mim, tem adoecido as pessoas. Elas estão carentes, preocupadas, com a sensação de que não vão dar conta, que o fim não chegará. Essa ansiedade acadêmica, institucional ou extra institucional, precisa ser cuidada.

Para finalizar essa entrevista repleta de boas perguntas. Quero responder a última questão dizendo que não há dicas para evitar a ansiedade. Calma, calma … vou tentar iluminar a explanação.  Como disse antes, a ansiedade se manifesta de jeitos diferentes nas pessoas. Estamos lidando com o humano, com o singular, o subjetivo. Cada qual com sua ansiedade, certo? Agora … evitar ansiedade talvez não seja o caminho. Ela sempre existiu, embora esteja mais evidente nos tempos atuais. Mas quem evita, fica ainda mais ansioso.

O caminho, Gabi, é olhar para ansiedade. Aprender com ela … juntos!

Sofrimento é humano … e tem potencial de nos ensinar a viver melhor. Qualquer tipo de sofrimento vem para nos mostrar algo que merece atenção. Confesso que a tarefa é difícil e deixo aqui o convite. Há profissional para ajudar nesse caminho e o nome dele é psicólogo(a).

Me disponho a trocar mais ideias, a responder possíveis questionamentos ou a um papo pessoalmente com qualquer leitor dessa entrevista. É só me procurar pelo e-mail abaixo.

Espero ter contribuído para a entrevista com reflexão e ampliação do saber. Foi um prazer me reencontrar com você, desta vez por meio de uma entrevista virtual. Aprendi muito História com você na viagem que fizemos na cidade de Heidelberg e hoje é um prazer colaborar com essa entrevista.

 

Gabriella: Eu que agradeço, em meu nome e de todo mundo que lê o comosobreviveraodoutorado.com!


 

Bom, para você que leu esta entrevista e tem alguma experiência com ansiedade na Academia, deixe um comentário aqui abaixo. Se você está sentindo que precisa de ajuda, entre em contato com a gente pelo e-mail do comosobreviveraodoutorado.com ou diretamente com o Felipe:


Felipe Sacomano
Celular (19) 994947003
Consultório (19) 32428461
felipesacomano@gmail.com
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Além disso, se você quiser aprender mais sobre o assunto e conhecer melhor as leituras que inspiraram o Felipe nesta entrevista, confira as referências abaixo.

 

FARIA, L. A. F. & SANTOS, L. P. Ansiedade e Gestalt-terapia. Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies. Goiânia, 2006.

Perls, F. S. (1977). Gestalt-terapia explicada. São Paulo: Summus.

SZASZ, T. S. Ideologia e doença mental: Ensaios sobre a desumanização psiquiátrica do homem. Zahar editores, Rio de Janeiro 1980.


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