Pós-graduação: o que significa fazê-la?

Uma narrativa de experiências.

A alguns dias de completar um ano da minha Defesa de Doutorado, acabei me inspirando a escrever um post mais pessoal.  Resolvi falar um pouco sobre como eu vejo a Pós-graduação. Apesar do tom pessoal, o que descrevo é um apanhado de experiências, não apenas minhas, mas de todos os demais pós-graduandos com quem convivi nesses anos. Aconselho a leitura àqueles que estão vivendo a experiência da pós, mas também àqueles indecisos, sobre seguir ou não esse caminho.

 

O antes e o depois

A pós-graduação sempre foi o caminho natural para mim, que tinha como objetivo de carreira virar professora universitária. Então eu nunca cogitei SE faria ou não mestrado ou doutorado, as coisas foram simplesmente acontecendo. Sei que essa história é comum para muita gente; gente que, como eu, não via outra possibilidade.

A minha ideia de pós-graduação era na época bem diferente da que tenho hoje. Eu não tinha a dimensão dos desafios! Sabia que não era algo simples e nunca tive medo de trabalhar, mas não enxergava o abismo entre o que estava por vir e o meu (des-)preparo.

Acho que nesse ponto, cabe um paralelo que pouca gente faz, mas que acho bastante ilustrativo: quando um recém-formado cai no mercado de trabalho, com alguma experiência de estágio talvez, achando que sabe muita coisa, e se vê perdido dentro de uma firma que tem uma dinâmica própria, sem saber por onde começar a executar suas funções… Bom, assim é o pós-graduando: inexperiente num mundo novo, apesar de familiar. Claro, você pode pensar que numa empresa a pessoa recebe treinamento e vai aprendendo aos poucos. Sim, se a empresa for boa; mas isso tampouco é diferente na pós-graduação, se você tiver uma boa orientação.

Na minha experiência (de quem optou pela pós e não caiu no mercado de trabalho recém-graduada), a pós exige muito de quem faz: muito pelo imaginário que temos dela e outro tanto pelas coisas erradas em sua estrutura. Antes eu pensava que essa exigência se resumia à disciplina, dedicação, esforço pessoal. Agora eu sei que por melhor aluna ou aluno que você seja, há muitos outros aspectos que determinam o sucesso do seu trabalho na pós. Coisas como infraestrutura, financiamento, engajamento docente, networking, formalidades e burocracia às vezes valem mais do que a sua boa-vontade.

 

O peso real e a má fama da Pós-graduação

Eu vi pessoas abdicarem da vida além do projeto, vi relacionamentos sólidos terminarem, vi muitas gastrites surgirem, insônias, até síndrome do pânico. Vi pessoas terem de trocar de orientador, vi brigas homéricas entre alunos e professores, vi orientadores falecerem antes da defesa. Vi muita gente sem bolsa tendo que trabalhar 40h por semana e encaixar o doutorado (quando?), vi gente com bolsa que achava que era pago para sentar na cantina e falar sobre a pesquisa que não existia. Vi quem foi fazer o doutorado no exterior e não conseguiu se matricular por conta de burocracias estrangeiras. Vi e vivi muitas histórias!

Depois de tudo isso, eu não saberia dizer se a pós é mais difícil que um trabalho no mercado, ou se as crises psicológicas todas que acompanhei não aconteceriam, caso a pessoa trabalhasse numa empresa. Não quero comparar desafios ou justificar mimimis. No post sobre saúde mental na pós, eu coloquei uma série de estatísticas que indicam um grande número de pós-graduandos sofrendo com distúrbios psicológicos. Ou seja, isso existe de fato, não é frescura e não pode mais ser negligenciado. Perceber isso e ver isso acontecendo ao meu redor foi um ponto de inflexão, a perda da minha imagem inocente sobre a pós, o fim de todo o romantismo em torno do trabalho intelectual.

A pós vista de fora

Na minha opinião, ainda é tão difícil falar dos impactos psicológicos da pós-graduação no Brasil pela visão que a sociedade tem sobre ela. As pessoas que não fazem pós-graduação, que não conhecem a dinâmica da pesquisa universitária, dificilmente entendem isso como um trabalho ou enxergam o pós-graduando como enxergam o funcionário da empresa. A dicotomia entre estudar vs. trabalhar ainda é muito presente na nossa sociedade, na forma de preconceito e desconhecimento, mas também pelos aspectos estruturais da pós-graduação.

Na Alemanha, doutorandos são pesquisadores com contrato assinado; eles têm todos os benefícios de um trabalhador não acadêmico, com direito a férias e seguro desemprego. Se recebem bolsa, firmam um contrato de trabalho com o Instituto, no qual fica especificado que o pagamento é feito por uma instituição de fomento, mas as responsabilidades e os benefícios são praticamente os mesmos. Em geral, o processo para conseguir a bolsa é organizado em conjunto com a universidade e não independentemente pelo candidato. O salário não é alto, mas os benefícios garantem que o pós-graduando seja visto como um funcionário acumulando anos de trabalho.

No Brasil, bolsista não tem carteira assinada. Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado, ou Residência Médica, por exemplo, não contam como anos trabalhados! Se estruturalmente a pós não é trabalho, fica difícil convencer o mundo fora da Universidade de que passar uma semana enfiado dentro de casa na frente do computador é trabalho; ou que você tem que passar 40 dias seguidos fazendo experimento, incluindo sábado, domingo, feriado e aniversário da sua vó; ou que você se sente sob pressão, mesmo não tendo que bater o ponto. Também é difícil convencer a si mesmo que você pode ter horário para começar e terminar o dia útil; que pode (e deve!) tirar umas horas para fazer exercícios físicos; que pode ler um livro só por prazer, sem pegar a caneta grifa-texto.

Por isso a principal estratégia de sobrevivência é, na minha opinião, aceitar a pós-graduação como um trabalho e vender essa imagem!

 

O projeto não é a coisa mais importante da sua vida

Apesar de ser central na vida do pós-graduando, priorizar o projeto acima de todas as coisas não é ideal. Hoje eu vejo o doutorado, como uma fase impotante para fazer contatos, conhecer gente da área, o famoso networking. Isso acontece em congressos, com a publicação de artigos, através de um bom relacionamento com os professores e demais pós-graduandos do seu Instituto. Embora eu soubesse disso na teoria, na prática, quando tinha um milhão e meio de coisas do projeto para fazer, eu não conseguia deixar a pesquisa de lado para “socializar”. Bom, “socializar” com outros acadêmicos, online ou pessoalmente é fundamental. Ouso dizer que é aquilo que permanece, depois que você conclui o doutorado; são os contatos e a imagem que essas pessoas têm de você que contam, muito mais do que a tese em si.

 

Pós-graduação no exterior não é um mar de rosas

A narrativa do meu doutorado na Alemanha vai ficar para um post futuro. Aqui eu queria só dizer que quando vai para o exterior, o pós-graduando ou a pós-graduanda passa muito do seu tempo de pesquisa tendo que se adequar à estrutura e formalidades da universidade de destino.

A burocracia de visto e matrícula é imensa, você tem que fazer cursos para poder pesquisar em arquivo ou trabalhar com animais em laboratório – independentemente de você já trazer essa experiência do Brasil. Universidades muito antigas são hierárquicas e tradicionais – também no mal sentido. Você lida com muitas coisas com as quais não está acostumado e perde muito tempo com isso. Além disso tem os cursos em língua estrangeira que cansam mais que cursos em português; depois a tese que você demora mais para escrever, porque tampouco será em português. Sem falar que você se forma, volta para o Brasil e seu diploma não vale até que você desembolse de mil a 3 mil reais para o processo de revalidação, que pode durar mais de ano!

A não ser que você tenha a mente muito colonizada e ache que tudo que é brasileiro é pior, você vai acabar se questionando sobre a decisão de ter ido estudar fora. Eu e outros bolsistas no exterior discutimos diversas vezes sobre as vantagens e desvantagens da experiência. Minha conclusão, hoje, é que ela vale a pena, dependendo da sua ideia de carreira futura. É importante pensar onde se quer chegar depois do doutorado e pesar os prós e contras.

 

Pós-graduação não é para todos

Em geral, eu diria que não me arrependo pelo caminho seguido. Há, claro, diversas coisas que eu faria diferente. Foi pensando nelas que criei coragem para lançar o blog: para que alguém, talvez, não cometa os mesmos erros. Bom, eu poderia cair no clichê de que erros são importantes e é assim que você cresce e aprende.  De fato, se aprende, mas não acho que todo erro tenha que ser cometido; acho que sábio mesmo é aprender a evitá-lo. Certamente eu teria me livrado de alguns problemas se tivesse me informado melhor e considerado mais as experiências alheias.

Diferentemente de quando comecei, eu não vejo mais a pós-graduação como um mal necessário! Não sou mais sua defensora, nem fico incentivando as pessoas a se aventurarem por esse caminho. Acho mesmo que nem todo mundo precisa de mestrado e doutorado. Em muitos casos é tão difícil falar não para a pós quanto é difícil fazê-la; por cobranças, preconceitos, expectativas. Acho também que emendar o doutorado no mestrado nem sempre é uma decisão inteligente.

Se você estiver pensando em fazer mestrado ou doutorado, não faça pelo retorno, esperando uma recompensa chegar. Amadureça a ideia, conversa com quem já passou por isso, com seu potencial orientador…  Faça apenas quando estiver seguro de que a pós-graduação vale a pena para você. Assim ficará mais fácil sobreviver aos momentos de crise.

Se você já passou por alguma etapa da pós, deixe um comentário com a sua experiência. Se você está pensando em fazê-la, divida com a gente suas dúvidas! Até a próxima!

11 comentários em: “Pós-graduação: o que significa fazê-la?

  1. Nossa! estou terminando o mestrado e fiquei ainda mais indecisa sobre continuar ou não! As vezes penso que o doutorado pode fazer falta lá na frente caso surja uma boa oportunidade, mas por outro lado não aguento mais essa vida de bolsista, sem contar que muitas vezes me sinto “inútil” por não ter um “trabalho” como as pessoas “normais”, isso foi muito bem colocado e espero que um dia seja reconhecido como trabalho!

  2. Obrigada por compartilhar a sua experiência! Por desconhecimento, algumas pessoas “glamourizam” a pós graduação, e na realidade, é um trabalho que estamos a desenvolver, e requer de nós muita disciplina, foco e determinação. De fato, se faz importância termos momentos nossos, de descanso e descontração, entretanto os prazos tão apertados para a entrega de artigos, não me deixam! É uma pressão e preocupação constante. Penso, que quando relaxo um pouco, já imagino a improdutividade – e como isso pesa em minha mente! Tenho buscado viver um dia de cada vez nessa jornada.

  3. “Também é difícil convencer a si mesmo que você pode ter horário para começar e terminar o dia útil […] que pode ler um livro só por prazer, sem pegar a caneta grifa-texto”. E como é difícil! Em meu segundo ano de doutorado, próxima da qualificação, não consigo me permitir ao prazer de ler um livro “só por ler”. Os meus livros para as horas de lazer são aqueles relacionados à profissão (só que não diretamente relacionados ao projeto), que possam servir de inspiração em algum momento – se não agora, futuramente, na sala de aula (e essa é outra pressão pela qual nós, pós-graduandos, passamos diariamente: como vai ser depois? vou conseguir passar em um concurso? meu lattes é suficientemente competitivo?). E não consigo largar o lápis e a caneta grifa-texto de jeito nenhum :/ Um dia aprendo. Excelente texto, me vi em várias linhas.

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