Precisamos falar sobre os Efeitos Psicológicos da Pós-Graduação

Olá! Falar que fazer Doutorado é algo difícil, já faz parte do senso comum. Porém, quase ninguém fala sobre os efeitos psicológicos reais que a pós-graduação causa na saúde mental de alunos e alunas.

 

Os números pelo Mundo

A luta psicológica desses estudantes é muito real e muito mais comum do que se imagina. Um estudo recente feito na Bélgica relata que cerca da metade dos doutorandos sofre de algum transtorno psicológico durante a pós-graduação, e ainda que 1/3 deles corre riscos de desenvolver um distúrbio psiquiátrico mais grave como a depressão.

Outro estudo da Universidade de Berkeley na Califórnia mostrou que dos 785 pós-graduandos entrevistados, 47% dos doutorandos e 37% dos mestrandos podem ser classificados como depressivos. Esse estudo complementou uma estatística de 10 anos antes, quando a Universidade concluiu que 10% dos pós-graduandos e pós-doutorandos já haviam considerado cometer suicídio.

No Reino Unido, distúrbios mentais atingem 53% dos acadêmicos, enquanto na Austrália a taxa foi considerada de 3 a 4 vezes maior na Academia do que na população em geral.

Fiz questão de colocar essas estatísticas todas, porque, embora ainda haja poucos estudos sobre o assunto, o resultado de todos que já existem são muito gritantes! Eles vêm sendo discutidos em revistas acadêmicas super importantes como a Science (texto 1, texto 2) e a Nature. Ou seja: o assunto é sério e precisa ser tratado com a devida atenção.

 

Universidades Brasileiras

No Brasil, de acordo com o psicólogo e pesquisador da PUC-SP Robson Cruz, há muito poucas estatísticas sobre a saúde mental dos universitários. Por outro lado, há cada vez mais notícias de psicopatologias nas nossas universidades. Em abril passado, uma notícia da Folha de São Paulo viralizou, ao relatar seis tentativas de suicídio entre alunos do curso de medicina da USP registradas só este ano. Segundo o professor de psiquiatria Francisco Lotufo Neto entrevistado na reportagem, o curso de medicina tem desde a graduação um peso psicológico muito grande, não apenas pela concorrência, mas também pelo contato constante com o sofrimento humano.

Durante a pós-graduação, Robson coloca os cursos de Humanidades como os maiores vilões. Isso porque o estudante desses cursos cobra demais seu desempenho na escrita, porque sente que tem que saber escrever. Além disso, há outros fatores que pesam: por experiência própria, eu diria que o aluno de humanas se isola muito durante a pesquisa. Em outros cursos é mais natural fazer parte de um grupo, uma equipe que faça trabalho de campo ou experimentos em laboratório, enquanto a maioria dos estudantes de humanas passa o tempo todo sentado na biblioteca sozinho.

Outro ponto que causa muito stress entre pós-graduandos é a relação com seus orientadores. Também em abril deste ano, a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) publicou um texto sobre os principais problemas relatados por alunos sobre a orientação. O texto traz exemplos de abuso sofridos por alunos e lista “agressão verbal” e “rebaixamento da capacidade cognitiva” como as principais denúncias, de acordo com o gráfico abaixo:

Tipos de abusos sofridos por estudantes na Pós-graduação

Gráfico de Cristiano Junta (Vice-presidente da ANPG)

O que são esses distúrbios mentais?

Fala-se muito em depressão e suicídio. Porém, esses estudos mostram que há diversos outros problemas afligindo os estudantes. Dentre eles, estão também a ansiedade – neste caso, estamos falando de quando a ansiedade se torna patológica –, a síndrome de burnout – quando você atinge um nível grave de exaustão, por trabalhar demais sem descansar e sem se divertir – e a síndrome do impostor – que atinge acadêmicos que não conseguem aceitar seu sucesso como mérito próprio.

Tanto o abuso na relação professor-aluno, como os transtornos psicológicos ainda são grandes tabus dentro e fora da Academia. Em geral, os alunos demoram para assumir que se encontram numa situação de crise – ou porque se sentem intimidados pelo ambiente da Universidade, ou porque entendem seu problema como uma fraqueza e não querem falar sobre ela. Em todos os estudos que eu mencionei acima, há uma mensagem muito clara: os estudantes precisam saber que não estão sozinhos!

 

Como lidar com esses problemas

Meu conselho

Meu primeiro conselho como ex-doutoranda é conversar! Se você está passando por problemas, mas não se sente confortável para falar com seu orientador ou sua orientadora sobre isso, não precisa! Na verdade, eu diria que vale sim a pena tentar, porque orientadores são corresponsáveis pelo seu trabalho e também já viram outros alunos em aporia. Mas se você não quer que ele/ela saibam que a pesquisa não está indo bem, ou que você tem dúvidas sobre onde vai chegar… Ou talvez eles mesmos sejam a causa das suas crises?! Então converse com um amigo, uma amiga. E aqui eu quero chamar a atenção para mais uma coisa: é sempre bom conversar com quem também está fazendo pós-graduação. Há mais chances dessa pessoa entender o seu problema, mas também de já ter vivido essa experiência e poder te dar dicas de como sair dela.

Por outro lado, é fundamental também conversar com alguém de fora; alguém que te conheça muito bem, como uma amiga ou um amigo de infância, um familiar, ou seu companheiro, sua companheira. Isso é importante, porque alguém de fora pode não entender o problema específico, mas vai enxergar o seu sofrimento, porque essa pessoa te conhece para além da vida de estudante. São normalmente essas pessoas que vão perceber que essas suas crises podem ser mais profundas do que você pensa e te ajudar a procurar ajuda!

Conselho de expert

Bom, e aqui a dica dos especialistas: converse com um profissional. Procure saber se a sua faculdade oferece algum tipo de serviço de assistência aos alunos. A Faculdade de Medicina da USP-SP, por exemplo, tem um Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno, bastante divulgado após os acontecimentos deste ano. Além disso, você pode entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida pelo site, ou pelo telefone, discando 141. A ANPG está se esforçando para que cada Universidade Brasileira crie uma Associação de Pós-Graduandos que funcione como um centralizador dos problemas e denúncias de alunos. Você pode conferir se a sua Universidade já tem uma APG aqui. Caso você não a encontre, baixe a Cartilha de Construção de APGs e discuta na sua Universidade sobre as possibilidades de fundar uma.

Por último – e mais importante! – considere procurar um psicólogo ou um psiquiatra. Entenda que nenhum trabalho acadêmico, nenhum título é mais importante que a sua vida. Trabalhar duro é uma coisa, mas enlouquecer durante o processo não está certo! Muita gente pode dizer que sim, que é difícil e que se você não se mata é porque não está se dedicando como deveria… Esquece isso que é besteira! Se você não está feliz, está com muita dificuldade de trabalhar, não consegue produzir, não enxerga nenhum benefício no que está fazendo, não faz mais nada na vida além da tese ou da dissertação, acha que nunca vai conseguir acabar, que nada vai dar certo; você só vai se beneficiar em procurar ajuda!!

 


Motivação – nova seção do blog

Com este post, eu inauguro esta seção “Motivação” do blog. Nas próximas semanas eu vou trazer dicas para te ajudar a combater os grandes vilões das nossas vidas de estudante: a famosa procrastinação, o bloqueio da escrita, a ansiedade causada pelo perfeccionismo e o medo de ser julgado pelo que se escreve, etc. etc. Antes disso, te aconselho a conferir nossas dicas sobre as formalidades do trabalho acadêmico e também a história do blog.

Mas, além disso, quero declarar esta seção como um canal de diálogo entre estudantes, ex-estudantes e especialistas, para discutir os efeitos psicológicos da pós-graduação nas nossas vidas. Se você está com dificuldades de enfrentar os desafios do TCC, do Mestrado ou do Doutorado, deixe um comentário com os temas que mais te afligem e se inscreva no blog para continuar acompanhando nossas dicas!


Links úteis

De novo, alguns links importantes que coloquei no post:

Centro de Valorização da Vida: http://www.cvv.org.br/

Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da FMUSP-SP: http://www2.fm.usp.br/grapal/

Associação Nacional de Pós-Graduandos: http://www.anpg.org.br/

Veja o vídeo em que o psicólogo pesquisador da PUC-SP Robson Cruz fala sobre Saúde Mental dos Pós-graduandos para a TV UFMG.

 


 

17 comentários em: “Precisamos falar sobre os Efeitos Psicológicos da Pós-Graduação

    1. Oi Angel, na verdade já! Conversei com pessoas da Física, Química e alguns amigos engenheiros fazendo pós. Todos eles mencionaram diversos problemas, como a incerteza sobre resultados de experimentos, por exemplo, mas esse isolamento mesmo foi queixa mais recorrente entre os colegas de humanas. Mas claro, cada experiência é única.
      Você faz doutorado em que disciplina? Sente também esse isolamento? Conta pra gente!

  1. Pessoal exagera de mais, é um mestrado em educação, não é como se fosse algo difícil(se você não acredita em mim dá uma olhada nas dissertações defendidas), quando eu fiz meu mestrado em economia, um professor dizia que a pressão faz parte do curso e eu concordo. Tinha professor que chamava aluno de burro na sala e ninguém ficava com conversa fiada por conta disso, até porque se você não aguenta é só sair.

    1. Triste seu comentário Diego, logo entendemos pq vc aceita o assédio moral de seu professor. TODOS os cursos tem pontos fortes e fracos, assim como teses boas e ruins, qual o lastro do seu currículo para achar que pode proferir julgamento em uma área que parece não ser a sua ? Baseado em seu comentário diríamos que existem outras áreas, cursos e teses mais importantes que outros, mesmo sabendo que humanos são dinâmicos e complexos e não unilaterais. As ciências são complementares.

  2. Eu tenho sofrido com perseguição direta da orientadora. Sempre cumpro meus prazos e faço as coisas com cuidado, sou de confiança dos colegas de equipe, bem como me prontifico a ajudar quem posso e quando posso. No entanto, a orientadora vive dizendo que sou irresponsável, que não participo das atividades, não faço nada certo, vive ameaçando me devolver para a pós graduação e cancelar meu experimento. Confesso que sou insubordinada e várias vezes bati de frente com ela pelas coisas que acredito por ela não entender os objetivos do projeto (ela não domina o assunto que abrange minha pesquisa, mas me força a ser especialista no assunto), ela nunca pega leve comigo e espera sempre surgir uma falha (por mínima que seja) para transformar num circo. Pensei seriamente, várias vezes, em entregar o ofício para ela e pedir pra sair, mas penso na equipe que deixaria à deriva, sem saber direito o que fazer e como conduzir as coisas. É triste você amar o que faz, mas não poder ter tranquilidade para estudar aquilo que dá prazer =/

    1. Pois é, Lucy, infelizmente amor não é suficiente para nos manter sãs durante a pós-graduação. O confronto às vezes é inevitável, mas a hierarquia sempre vai prejudicar o aluno, nesses casos. Tente descobrir se sua universidade oferece algum serviço de apoio ao pós-graduando e converse sobre sua situação. Talvez a melhor solução seja mesmo conversar , com a equipe, até com a orientadora, se você tiver a oportunidade. Já vi situações que pensava incontornáveis serem minimizadas com uma boa conversa. Estou torcendo!

  3. Tive esse tristes experiências durante o doutorado. Fiquei doente, precisei de ajuda médica mas não deixei de lado meu tão desejado título. Em todas as oportunidades de orientações, procuro ao máximo atuar como orientadora pois é totalmente dispensável essa dor que professores despreparados exercem sobre os alunos. Destaco ainda que essa atitude de orientador carrasco pode ser encarada como limitação intelectual para ir além.
    Passar por um processo seletivo, te o projeto aprovado e ingressar em um programa de doutorado é para quem tem foco e já é vencedor.
    Passado superado e glórias colhidas com trabalho sério e muito esforço que justifica a título de Dra.

  4. Já não basta ter feito essa porcaria de doutorado sem bolsa e sem emprego, levar furo de (des)orientadora, quase ser cortada porque (des)orientadora não cumpre prazo e ainda ganhar de brinde depressão? Ah, não né? Por isso ano que vem vou viver fazendo hortas, costurando. Não dá lucro mas não dá o desgosto que a pós-graduação dá! Além disso ter que aguentar deboche de “colegas” que falam que o fato de não ter bolsa desqualifica a sua pesquisa e a torna dispensável. Muito triste! Larguei muito dos meus planos, da minha vida para essa tese e não ganhei nada! Desisti mesmo! Só espero defender daqui há três meses e essa história macabra acabar! Se eu imaginasse que esse doutorado seria tão frustrante e desgastante sob todos os aspectos, não tinha feito a seleção…

      1. Gabriella, você tem toda razão! É sempre bom as pessoas ficarem alertas! Mas, o que eu percebo é que pelo menos no programa em que estou os/as orientadores/as parece quem escolhem alguns oirentandos/as para perseguirem, enquanto outros são glorificados! Isso me entristece e muito! De tanto que no final do ano defendo a tese e vou largar tudo! Não quero fazer concurso, ir atrás de um estágio de pós-doutorada, ir a eventos, publicar nada disso! Vou fazer horta aqui no quintal de casa, costurar, bordar, cozinhar e nunca mais chegar perto de nada que lembre a universidade! COm o perdão da comparação, sinto-em estuprada pela pós-graduação!

        1. Luciana, é muito difícil mesmo lidar com isso. Infelizmente, esse cenário de perseguição vs glorificação é muito comum mesmo, dentro e fora da Academia. Sua decepção é muito compreensível, mas quem sabe, com o passar do tempo, você não consegue focar mais nos pontos positivos e resolve seguir com a carreira acadêmica. Sempre penso que pós-graduandos com experiência de orientação ruim podem ser excelentes orientadores 😉

          1. Gabriella, agradeço imensamente a sua compreensão e estímulo! Mas, já tomei a decisão: 2017 estou me dedicando ao máximo, terminando a tese, indo aos eventos da minha área que posso e escrevendo os dois últimos artigos. Entro em 2018 longe e distante de tudo que sequer lembre a acadêmia! Acadêmia ano que vem só a de natação!

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